Homenagens

Watchman Nee      

A Obra Dinâmica de Salvação Realizada por Deus

Muitos missionários protestantes foram enviados da Europa e dos Estados Unidos para a China, a partir do século XVI. Nos primeiros anos do século XX, após séculos de trabalho fiel e alavancado pelo martírio de muitos cristãos na Revolução Boxer, o mover do Senhor na China avançou dramaticamente. Muitos pregadores “nativos” foram levantados pelo Senhor e se tornaram a força prevalecente na pregação do evangelho, especialmente em 1920, junto à nova geração de estudantes colegiais e universitários chineses. Um certo número de estudantes brilhantes, entre os quais estava Nee Shu-tsu (Watchman Nee), foram chamados e preparados pelo Senhor para fazer a Sua obra neste período.

Nee Shu-tsu, cujo nome em inglês era Henry Nee, nasceu de pais pertencentes a uma segunda geração de cristãos em Foochow, China, em 1903. Seu avô paterno, na realidade, havia estudado no American Congregational College em Foochow e se tornou um dos primeiros pastores chineses entre os congregacionalistas na província de Fukien, ao norte. Nee Shu-tsu foi consagrado ao Senhor antes de seu nascimento. Desejando um filho, sua mãe havia orado ao Senhor, “Se eu tiver um menino, eu irei apresentá-lo a Ti”. O Senhor respondeu sua oração e, logo após, Nee Shu-tsu nascia. Seu pai, mais tarde, marcou este fato em sua memória, “Antes que você tivesse nascido, sua mãe prometeu apresentá-lo ao Senhor”.

Antes de sua salvação, Nee Shu-tsu era um estudante com um péssimo comportamento, mas ao mesmo tempo, excepcionalmente inteligente. Ele estava sempre entre os primeiros da classe na sua escola, desde a escola primária até sua graduação no Anglican Trinity College em Foochow. Ele tinha muitos grandes sonhos e planos para o futuro e poderia ter tido um grande sucesso no mundo. No entanto, Nee Shu-tsu, familiarizado com o evangelho desde a infância, tinha uma compreensão profunda de que se ele recebesse Jesus como seu Senhor para salvação, ele deveria também servi-lo. Em 1920, depois de uma considerável luta interior, Nee Shu-tsu, então com dezessete anos de idade e ainda um estudante colegial, foi salvo dinamicamente. No momento de sua salvação, todos os seus planos anteriores se tornaram vazios e sua carreira futura foi inteiramente abandonada. Ele testemunhou, “Desde a noite em que fui salvo, eu comecei uma nova vida porque a vida do Deus Eterno havia entrado em mim”. Mais tarde, depois de ter sido levantado pelo Senhor para realizar Sua missão, ele adotou um novo nome em inglês “Watchman” (Sentinela) e um novo nome chinês “To-sheng”, o qual significa “alarme de sentinela”, porque ele se considerava como uma sentinela levantada para soar um alarme na noite escura.

Preparação e Treinamento

Watchman Nee não cursou nenhuma escola de teologia ou instituto bíblico. Sua riqueza de conhecimento a respeito do propósito de Deus, Cristo, as coisas do Espírito e a igreja foi adquirida através do estudo da Bíblia e leitura de livros espirituais cristãos. Watchman Nee se tornou grandemente iluminado e intimamente familiar com a Palavra através de estudo diligente, usando mais de vinte métodos diferentes. Em adição a isto, nos primeiros dias de ministério, ele gastava um terço de seus ganhos com suas necessidades pessoais, um terço ajudando outras pessoas, e o restante um terço com livros espirituais. Ele adquiriu uma coleção com mais de 3,000 dos melhores livros cristãos, incluindo quase todos os escritores clássicos cristãos, do primeiro século em diante. Ele possuía uma habilidade fenomenal para selecionar, compreender, discernir e memorizar material relevante, além de poder entender e reter os principais pontos e princípios espirituais de um livro em uma rápida olhada. Watchman Nee era, portanto, capaz de colher da escritura todos os pontos valiosos e princípios espirituais, de toda a história cristã, e sintetizá-los em sua visão e prática da vida cristã e da vida da igreja.
Watchman Nee se familiarizou com muitos destes livros através Margaret Barber, uma ex-missionária anglicana. Cedo em sua vida cristã, ele recebeu muita edificação e perfeição espiritual dela. Primariamente através de sua amizade com a Srta. Barber, Watchman Nee percebeu que ser um cristão é realmente uma questão da vida divina em nós. Através do pastoreamento dela, ele aprendeu a prestar mais atenção à vida do que à obra e viver sua vida através de Cristo.

Sofrimentos

Watchman Nee teve uma visão inegável e recebeu uma comissão definida do Senhor a respeito da Igreja, e ele sofreu grandemente devido à sua fidelidade a elas. Porque a visão era tão clara e a comissão tão real, não importava para ele se ele fosse rejeitado, sofresse oposição ou condenado. Ele antecipou estas respostas e estava determinado a pagar qualquer preço pela comissão que ele havia recebido do Senhor. Sua fidelidade a esta comissão custou a ele, no fim, a sua própria vida. Suas revelações profundas, combinadas com seus sofrimentos resultaram em um rico ministério de vida, de acordo com a comissão do Senhor para ele: o ministério neotestamentário único de Cristo e a Igreja.
Watchman Nee suportou muitos sofrimentos pelo ministério do Novo Testamento. Devido ao seu absolutismo em seguir ao Senhor e sua fidelidade em cumprir o comissionamento de Deus, ele passou por freqüentes maus-tratos tanto quanto dificuldades por toda a sua vida. Porque ele lutou sem descanso a batalha pelo mover de Deus, ele estava sob constante ataque do inimigo de Deus. Ao mesmo tempo, ele estava debaixo da mão soberana de Deus. Ele reconhecia as intervenções soberanas de Deus à sua volta não somente como um “espinho na carne” divinamente dado; mas, mais importante, como um meio pelo qual Deus era capaz de lidar com ele. Devido a ambos, os ataques do inimigo e as intervenções fiéis feitas por Deus, Watchman Nee viveu uma vida de sofrimento. A maior parte de seus sofrimentos vieram de cinco fontes: pobreza, saúde ruim, variedade de denominações, irmãos e irmãs em dissensão nas igrejas locais e aprisionamento.

Nos primeiros anos do ministério de Watchman Nee, a situação econômica da China era desesperadora. Por causa do que ele havia visto na Palavra, ele estava exercitado para viver pura e simplesmente pela fé em Deus; não somente para seu sustento, mas também em cada aspecto da obra de Deus. Portanto, ele sistematicamente recusou empregos oferecidos por quaisquer pessoas ou organizações. Nos primeiros dias do seu ministério em Shangai, houve vezes em que tudo o que ele tinha para comer a cada dia era um pãozinho.

Watchman Nee também era freqüentemente afligido por sérios problemas de saúde. Nos primeiros onze anos de seu ministério (iniciando em 1922), ele sofreu sozinho, sem uma esposa que pudesse ajudá-lo. Durante este período, ele contraiu tuberculose e sofreu imensamente por muitos anos. Em 1934, com trinta anos de idade, entretanto, Watchman Nee casou-se com uma verdadeira “ajudadora”, Charity Chang, apesar do Senhor não ter dado filhos a eles. Em seus últimos anos, ele também sofreu de desordens estomacais crônicas assim como angina, uma séria doença cardíaca. Ele nunca foi curado desta doença cardíaca e poderia ter morrido por causa dela a qualquer momento. De fato, muitas vezes ele ministrou, não usando de vigor físico, mas através da vida ressurrecta.

Ele também sofreu por causa de sua crença de que, de acordo com a Bíblia, as denominações são um erro, pois promovem a divisão do Corpo único de Cristo. Por causa de sua posição firme em relação à unidade do Corpo de Cristo, que era um testemunho contra as denominações, elas lhe causaram muito sofrimento. Algumas o desprezavam, criticavam, se opunham e faziam o melhor possível para destruir o seu ministério. Elas também espalharam falsos rumores sobre ele e o caluniaram a tal ponto que Watchman Nee uma vez respondeu, “O Watchman Nee retratado por elas também seria condenado por mim”.

Certos irmãos e irmãs que congregavam nas igrejas locais se tornaram outra fonte de sofrimento para Watchman Nee. Para ele, este foi o tipo de sofrimento mais doloroso. Alguns destes irmãos causaram um grande número de problemas devido à sua dissensão, imaturidade, incompetência, teimosia, ambição por posições ou rebelião. Dois anos depois que a vida da igreja começou a ser praticada na cidade natal de Watchman Nee, em 1922, ele foi temporariamente excomungado pelos seus próprios companheiros na obra por causa da sua posição firme em relação à verdade das Escrituras, quando ele protestou a respeito da ordenação de alguns de seus companheiros de liderança, feita por um missionário denominacional. Apesar da maior parte dos irmãos que congregavam com eles ter ficado ao lado de Watchman Nee, o Senhor não o permitiu que fizesse qualquer coisa para se vingar. Este foi um profundo sofrimento para o seu homem natural.

A fonte final de sofrimento foi a sua condenação e aprisionamento sem nenhum fundamento. Watchman Nee foi aprisionado durante a Revolução Cultural Comunista em março de 1952 e foi julgado, falsamente condenado e injustamente sentenciado a quinze anos de prisão em 1956.

Watchman Nee foi um homem de tristezas e sofrimentos. Ao longo de toda a sua jornada seguindo o Cordeiro, ele sofreu muito. Através de todos estes sofrimentos, no entanto, ele aprendeu muitas lições. Eles sofrimentos não somente o ajudaram a confiar no Senhor, como também o beneficiaram em sua luta contra sua carne, seu eu, sua alma e sua vida natural. Devido à sua obediência à estes tratamentos, ele nunca ensinou simples doutrinas e ensinamentos, mas suas mensagens continham a realidade adquirida através de seus sofrimentos. A experiência que ele adquiriu através de seus sofrimentos serviu como uma ajuda imensurável para todos aqueles debaixo do seu ministério e também se tornou uma rica herança para todas as igrejas locais, uma herança adquirida por ele pelo mais alto preço.

Seus sofrimentos também o ajudaram a ter mais revelação do Senhor. Cada tipo de sofrimento com freqüência era acompanhado por uma revelação específica, relativa àquele assunto. Seus sofrimentos, portanto, com freqüência se tornaram a revelação de Deus para ele. Ele foi purificado, tratado, quebrado e constituído pelo Espírito Santo com a vida divina através de seus sofrimentos. Por meio de tais experiências de Cristo em meio ao seu sofrimento, ele, como Paulo, foi preparado e posicionado para receber a revelação de Deus.
 

Martírio

Watchman Nee foi guiado pelo Senhor para permanecer na China continental apesar da ameaça do comunismo e sacrificar a tudo pela obra do Senhor ali. Neste aspecto, ele foi parecido com o apóstulo Paulo em Atos 20:24: “Mas eu considero minha vida sem valor e nenhuma preciosidade para mim mesmo, de modo que eu possa terminar minha carreira e o ministério que eu recebi do Senhor Jesus…”. A respeito desta decisão, o irmão Hsu Jin-chin testificou o seguinte:
Antes que o irmão Nee deixasse Hong Kong, irmão Lee o aconselhou muitas vezes a não retornar para o continente. Mas o irmão Nee disse, “Se uma mãe descobrisse que a sua casa estivesse em fogo, e que ela fosse a única que estivesse fora da casa, lavando roupa, o que ela faria? Apesar dela perceber o perigo, ela não correria de volta para a casa? Apesar de eu saber que o meu retorno é cheio de perigos, eu sei que muitos irmãos e irmãs estão lá dentro. Como eu posso não retornar?” Irmão Lee acompanhou-o por três vezes do ponto de ônibus de volta para a sua casa em Diamond Hill… Watchman Nee foi preso pelos comunistas em março de 1952 por professar fé em Cristo tanto quanto por sua liderança entre as igrejas locais. Ele foi julgado, falsamente condenado e sentenciado em 1956 a quinze anos de prisão. Durante todo este tempo, somente à sua esposa foram permitidas visitas a ele. Apesar de haver maneira de sabermos o que ele experienciou do Senhor durante o seu longo período de aprisionamento, suas últimas oito cartas nos dão um vislumbre dos seus sofrimentos, sentimentos e expectativas durante o confinamento. Apesar da censura da prisão não permitir que ele mencionasse o nome do Senhor em suas cartas, em sua carta final, escrita no dia de sua morte, ele fez uma alusão à sua alegria no Senhor: “Na minha doença, eu ainda permaneço alegre no coração”. Watchman Nee estava praticando as palavras do apóstulo Paulo em Filipenses 4:4: “Alegrem-se sempre no Senhor”. Ele morreu em confinamento na sua cela em 30 de maio de 1972. Humanamente falando, ele morreu em miséria e humilhação. Nenhum parente ou irmão ou irmã no Senhor estava com ele. Não houve uma notificação apropriada de sua morte e não houve funeral. Ele foi cremado em 1 de junho de 1972. Sua esposa havia morrido seis meses antes, de maneira que a irmã mais velha dela foi informada de sua morte e cremação. Ele recuperou as suas cinzas e elas foram enterradas com a da Sra. Nee em sua cidade natal de Kwanchao, no condado de Haining, província de Chekiang. Em maio de 1989, as cinzas de Watchman Nee e sua esposa foram transferidas e enterradas no “Cemitério Cristão em Shiangshan, na cidade de Soochow da província de Kiangsu.

O que se segue é um relato da sobrinha do irmão Nee, a qual acompanhava a irmã mais velha da Sra.Nee no trabalho de recolher as cinzas: Em junho de 1972, nós recebemos uma nota da fazenda de trabalhos forçados avisando que o meu tio-avô havia falecido. A mais velha das minhas tias-avós e eu corremos para a fazenda de trabalhos forçados. Porém, quando nós chegamos lá, soubemos que ele já havia sido cremado. Nós pudemos apenas ver as suas cinzas… Antes de sua partida, ele deixou um pedaço de papel debaixo do seu travesseiro com várias linhas de palavras grandes escritas com uma mão trêmula. Ele queria testificar a verdade que ele havia experimentado por toda a sua vida, até mesmo na hora da sua morte. Esta verdade é — “Cristo é o Filho de Deus que morreu pela redenção dos pecadores e ressuscitou depois de três dias. Esta é a maior verdade do universo. Eu morro por causa da minha crença em Cristo – Watchman Nee”. Quando o oficial da fazenda nos mostrou este papel, eu orei ao Senhor que me deixasse decorá-lo rapidamente…

Meu tio-avô havia morrido. Ele foi fiel até a morte. Com uma coroa manchada com sangue, ele foi estar com o Senhor. Apesar de Deus Todo-Poderoso não ter satisfeito o seu último desejo, que ele pudesse sair vivo para se encontrar com a sua esposa, o Senhor preparou uma coisa ainda melhor – Eles foram reunidos diante do Senhor. Durante o aprisionamento de Watchman Nee, ele foi fisicamente confinado, mas o seu ministério não foi preso (2 Tim. 2:9). Debaixo da soberania do Senhor, seu ministério se espalhou pelo mundo todo, como uma provisão rica de vida para todos os cristãos sinceros.

Seu último peso foi pelas igrejas de Deus, o tabernáculo de Deus. Apesar do seu próprio tabernáculo físico (corpo físico) estivesse abatido, as igrejas, as quais eram tão queridas em seu coração, estão não somente sobrevivendo, mas continuam a crescer vigorosamente e a se espalhar sobre toda a terra. Na época que Watchman Nee foi preso, em 1952, aproximadamente 400 igrejas locais haviam sido levantadas na China através de sua vida e ministério. Em adição, mais de trinta igrejas locais foram levantadas nas Filipinas, Singapura, Malásia, Tailândia e Indonésia. Hoje o Senhor tem multiplicado as igrejas locais a mais de 2.300 ao redor do mundo, através dos ricos e fiéis ministérios de Watchman Nee e Witness Lee.
Extraído e traduzido do site www.watchmannee.orgCOPYRIGHT ©1997-2002 LIVING STREAM MINISTRY.

Doze conselhos importantes para aqueles que desejam ser líderes na casa de Deus
Por: Watchman Nee


01. Aprendam a amar os outros, a pensar no bem deles, a ter cuidado por eles, a negar-se a si próprios por causa deles e a dar a eles tudo o que têm. Se alguém não consegue negar-se a si próprio em beneficio dos outros, ser-lhe-á impossível conduzir alguém no caminho espiritual. Aprendam a dar aos outros o que você tem, ainda que se sinta como se nada tivesse. Então o Senhor começará a derramar-lhe a Sua bênção.

02. A força interior de um líder deveria equivaler à sua força exterior. Esforços em demasia, avanços desnecessários, inquietações, apertos, tensões, falta no transbordar, planos humanos e avanços na frente do Senhor, são todas as coisas que não devem ocorrer. Se alguém está cheio de abundância em seu interior, tudo o que emana dele é como o fluir de correntes de águas, e não existem esforços demasiados de sua parte. É preciso ser de fato um homem espiritual, e não simplesmente se comportar como um.

03. Ao fazer a obra de Deus aprenda a ouvir os outros. O ensinamento de Atos 15 consiste em ouvir, isto é, ouvir o ponto de vista de outros irmãos porque o Espírito Santo poderá falar por meio deles. Seja cuidadoso, pois ao recusar ouvir a voz dos irmãos, você poderá estar deixando de ouvir a voz do Espírito Santo. Todos aqueles envolvidos em liderança devem assentar-se para ouvi-los. Dê a eles oportunidades ilimitadas de falar. Seja gentil, seja alguém quebrantado e esteja pronto para ouvir.

04. O problema de muito líderes é não estarem quebrantados. Pode ser que tenham ouvido muito, a respeito de serem “quebrantados” porem não possuem revelação dessa verdade. Se alguém está quebrantado, não tentará chegar as suas próprias decisões no que toca a questões importantes ou aos ensinamentos, não dirá que é capaz de compreender as pessoas ou de fazer coisas, não ousará tomar para si a autoridade ou impor a sua própria autoridade sobre os outros, nem, aventurar-se-á a criticar os irmãos ou tratá-los com presunção. Um irmão quebrantado não tentará auto defender-se, nem se remoer por algo que ficou para traz.

05. Não deve existir nas reuniões nenhuma tensão, tampouco na Igreja. Com respeito às coisas da Igreja aprenda a não fazer tudo você mesmo. Distribua as tarefas entre os outros e os leve a aprender a usar suas próprias capacidades de executar. Em primeiro lugar, você deve expor-lhes resumidamente os princípios fundamentais a seguir e depois se certificar de que agiram de acordo. É um erro fazer você fazer muita coisa. Evite também aparecer demais na reunião, caso contrário os irmãos poderão ter a sensação de que você está fazendo tudo sozinho. Aprenda a ter confiança nos irmãos e a distribui-la entre eles.

06. O Espírito de Deus não pode ser coagido na Igreja. Você precisa ser submisso a Ele, pois, caso contrário, quando Ele cessar de ungi-lo a Igreja se sentirá cansada ou até mesmo enfadada. Se o meu espírito estiver forte em Deus, ele alcançará e tomará a audiência em dez minutos; se estiver fraco não adiantará gritar palavras estrondosas ou gastar um tempo mais longo, o que inclusive com certeza será prejudicial.

07. Ao pregar uma mensagem, não a faça demasiadamente longa ou trabalhada, caso contrário o espírito dos santos sentir-se-á enfadado. Não inclua pensamentos superficiais ou afirmações rasteiras no conteúdo da mensagem; evite exemplos infantis, bem como raciocínios passíveis de serem considerados pelas pessoas como infantis. Aprenda concluir o ponto alto da mensagem dentro de um período de meia hora. Não imagine que, o fato de estar gostando de sua própria mensagem, significa que as suas palavras são necessariamente de Deus.

08. Uma tentação com que freqüentemente nos deparamos numa reunião de oração é querer liberar uma mensagem ou falar por tempo demasiado. Uma reunião de oração deve ser consagrada a oração, muito falatório levará à sensação, de sentir-se pesado, com o que a reunião se tornará um fracasso.

09. Os obreiros precisam aprender muito, antes de assumirem uma posição onde tenham de lidar com problemas ou com pessoas. Com um aprendizado inadequado, um conhecimento insuficiente, um quebrantamento incompleto e um juízo não digno de confiança serão incompetentes para lidar com os outros. Não tire conclusões precipitadas; mesmo quando se está prestes a fazer algo se deve fazê-lo com temor e tremor. Nunca trate com leviandade as coisas espirituais. Pondere-as no coração.

10. Aprenda a não confiar unicamente em seus próprios juízos. Aquilo que consideras correto pode ser errado e aquilo que consideras errado pode ser correto. Se alguém está determinado a aprender com humildade, levará, com certeza, alguns poucos anos para terminar de faze-lo. Portanto, por enquanto, você não deve confiar demasiadamente em si mesmo ou estar muito seguro a respeito, do seu modo de pensar.

11. É perigoso para as pessoas da Igreja seguirem as suas decisões antes de você ter atingido o estado de maturidade. O Senhor operará em você para tratar seus pensamentos e para quebranta-lo antes que você possa compreender a vontade de Deus e ser definitivamente ‘autoridade de Deus’ – A autoridade se baseia no conhecimento da vontade de Deus. Onde não estiver sendo manifestado a vontade e o propósito de Deus, ali não há autoridade de Deus.

12. A capacidade de um servo de Deus com certeza será expandida porém pelo mesmo Deus que o capacitou. Descanse em Deus, ame-o de todo o coração. Jesus disse “sem mim nada podereis fazer”. A autoridade necessária para o desempenho do ministério é fruto de nosso relacionamento. Nunca olhe para dentro de você mesmo, pois isso poderia desanimá-lo, porém, jamais abra mão da:

– Intimidade com Deus
– O conselho dos sábios que Deus colocou na Igreja

“Não fostes vós que me escolhestes, porém eu vos escolhi a vós e vos designei para que vades e deis frutos e o vosso fruto permaneça afim de que tudo o pedirdes ao Pai em meu nome Ele vos conceda” (João 15:16).

MARTINHO LUTERO

Martinho Lutero (em alemão: Martin Luther, Eisleben, 10 de novembro de 1483 – Eisleben, 18 de fevereiro de 1546) foi um padre e professor de teologia alemão que é creditado por ter iniciado a Reforma Protestante.[1] Veementemente contestando a alegação de que a liberdade da punição de Deus sobre o pecado poderia ser comprada, confrontou o vendedor de indulgências Johann Tetzel com suas 95 Teses em 1517. Sua recusa em retirar seus escritos a pedido do Papa Leão X em 1520 e do Imperador Carlos I de Espanha na Dieta de Worms em 1521 resultou em sua excomunhão pelo papa e a condenação como um fora-da-lei pelo imperador.

Luther ensinava que a salvação não se consegue apenas com boas ações, mas de um livre presente de Deus, recebida apenas pela graça através da fé em Jesus como um redentor do pecado. Sua teologia desafiou a autoridade papal na Igreja Católica Romana por ensinar que a Bíblia é a única fonte de conhecimento divinamente revelada[2] e opôs-se ao sacerdotalismo, por considerar todos os cristãos batizados como um sacerdócio santo.[3] Aqueles que se identificavam com os ensinamentos de Luther eram chamados luteranos.

Sua tradução da Bíblia em outros idiomas (que não o latim) fez do livro mais acessível, causando um impacto gigantesco na Igreja e na cultura alemã. Promoveu um desenvolvimento de uma versão padrão da língua alemã, adicionando vários princípios à arte de traduzir[4], e influenciou a tradução para o inglês da Bíblia do Rei James.[5] Seus hinos influenciaram o desenvolvimento do ato de cantar em igrejas.[6] Seu casamento com Catarina von Bora estabeleceu um modelo para a prática do casamento clerical, permitindo o matrimônio de padres protestantes.[7]

Em seus últimos anos, Luther tornou-se fortemente um antissemita, chegando a escrever que as casas judaicas deveriam ser destruídas, e suas sinagogas queimadas, dinheiro confiscado e liberdade cerceada. Essas afirmações fizeram de Luther uma figura controversa entre muitos historiadores e estudiosos

Primeiros anos de vida

Martinho Lutero, cujo nome em alemão era Martin Luther ou Luder, era filho de Hans Luther e Margarethe Lindemann. Mudou-se para Mansfeld, onde seu pai dirigia várias minas de cobre. Tendo sido criado no campo, Hans Luther desejava que seu filho viesse a se tornar um funcionário público; melhorando, assim, as condições da família. Com esse objetivo, enviou o ja velho Martinho para escolas em Mansfeld, Magdeburgo e Eisenach.

Aos dezessete anos, em 1501, Lutero ingressou na Universidade de Erfurt, onde tocava alaúde e recebeu o apelido de “O filósofo“. Ainda na universidade de Erfurt, estudou a filosofia nominalista de Ockham (as palavras designam apenas coisas individuais; não atingem os “universais”, as realidades presentes em todos os indivíduos, como por exemplo a natureza humana; em consequência, nada pode ser conhecido com certeza pela razão natural, exceto as realidades concretas: esta pessoa, aquela coisa). Esse sistema dissolvia a harmonia multissecular entre a ciência e a fé que tanto foi defendida pela “Escolástica” de “São jesus cristo“, pois essa filosofia tinha as unicamente na vontade de Deus. O jovem estudante graduou-se bacharel em 1502 e concluiu o mestrado em 1505, sendo o segundo entre dezessete candidatos[9]. Seguindo os desejos paternos, inscreveu-se na escola de Direito da mesma Universidade. Mas tudo mudou após uma grande tempestade com descargas elétricas, ocorrida naquele mesmo ano (1505): um raio caiu próximo de onde ele estava passando, ao voltar de uma visita à casa dos pais. Aterrorizado, gritou então: “Ajuda-me, Sant’Ana! Eu me tornarei um monge!”

Tendo sobrevivido aos raios, deixou a faculdade, vendeu todos os seus livros, com exceção dos de Virgílio, e entrou para a ordem dos Agostinianos, de Erfurt, a 17 de julho de 1505

Vida monástica e acadêmica

O jovem Martinho Lutero dedicou-se por completo à vida no mosteiro, empenhando-se em realizar boas obras a fim de agradar a Deus e servir ao próximo através de orações por suas almas. Dedicou-se intensamente à meditação, às autoflagelações, às muitas horas de oração diárias, às peregrinações e à confissão. Quanto mais tentava ser agradável ao Senhor, mais se dava conta de seus pecados[11]

Johann von Staupitz, o superior de Lutero, concluiu que o jovem necessitava de mais trabalhos, para afastar-se de sua excessiva reflexão. Ordenou, portanto, ao monge que iniciasse uma carreira acadêmica. Em 1507, Lutero foi ordenado sacerdote. Em 1508, começou a lecionar Teologia na Universidade de Wittenberg. Lutero recebeu seu bacharelado em Estudos bíblicos a 19 de março de 1508. Dois anos depois, visitou Roma, de onde regressou bastante decepcionado.[12]

Em 19 de outubro de 1512, Martinho Lutero graduou-se Doutor em Teologia e, em 21 de outubro do mesmo ano, foi “recebido no Senado da Faculdade Teológica” com o título de “Doutor em Bíblia”. Em 1515, foi nomeado vigário de sua ordem tendo sob sua autoridade onze monastérios.

Durante esse período, estudou grego e hebraico, para aprofundar-se no significado e origem das palavras utilizadas nas Escrituras – conhecimentos que logo utilizaria para a sua própria tradução da Bíblia.

A controvérsia acerca das indulgências

Além de suas atividades como professor, Martinho Lutero ainda colaborava como pregador e confessor na igreja de Santa Maria, na cidade. Também pregava habitualmente na igreja do Castelo (chamada de “Todos os Santos” – porque ali havia uma coleção de relíquias, estabelecidas por Frederico II de Saboia). Foi durante esse período que o jovem sacerdote se deu conta dos problemas que o oferecimento de indulgências aos fiéis, como se esses fossem fregueses, poderia acarretar.

A indulgência é a remissão (parcial ou total) do castigo temporal imputado a alguém por conta dos seus pecados. Naquele tempo qualquer pessoa poderia comprar uma indulgência, quer para si mesmo, quer para um parente já morto que estivesse no Purgatório. O frade Johann Tetzel fora recrutado para viajar através dos territórios episcopais do arcebispo Alberto de Mogúncia, promovendo e vendendo indulgências com o objetivo de financiar as reformas da Basílica de São Pedro, em Roma.

Lutero viu este tráfico de indulgências como um abuso que poderia confundir as pessoas e levá-las a confiar apenas nas indulgências, deixando de lado a confissão e o arrependimento verdadeiros. Proferiu, então, três sermões contra as indulgências em 1516 e 1517. Segundo a tradição, a 31 de outubro de 1517 foram afixadas as 95 Teses na porta da Igreja do Castelo de Wittenberg, com um convite aberto ao debate sobre elas. Essas teses condenavam o que Lutero acreditava ser a avareza e o paganismo na Igreja como um abuso e pediam um debate teológico sobre o que as Indulgências significavam. Para todos os efeitos, contudo, nelas Lutero não questionava diretamente a autoridade do Papa para conceder as tais indulgências.

As 95 Teses foram logo traduzidas para o alemão e amplamente copiadas e impressas. Ao cabo de duas semanas se haviam espalhado por toda a Alemanha e, em dois meses, por toda a Europa. Este foi o primeiro episódio da História em que a imprensa teve papel fundamental, pois facilitou a distribuição simples e ampla do documento.

A resposta do Papado

Depois de fazer pouco caso de Lutero, dizendo que ele seria um “alemão bêbado que escrevera as teses“, e afirmando que “quando estiver sóbrio mudará de opinião[13] o Papa Leão X ordenou, em 1518, ao professor de teologia dominicano Silvestro Mazzolini que investigasse o assunto. Este denunciou que Lutero se opunha de maneira implícita à autoridade do Sumo Pontífice, quando discordava de uma de suas bulas. Declarou ser Lutero um herege e escreveu uma refutação acadêmica às suas teses. Nela, mantinha a autoridade papal sobre a Igreja e condenava as teorias de Lutero como um desvio e uma apostasia.

Lutero replicou de igual forma (academicamente), dando assim início à controvérsia.

Enquanto isso, Lutero tomava parte da convenção dos agostinianos em Heidelberg, onde apresentou uma tese sobre a escravidão do homem ao pecado e a graça divina. No decorrer da controvérsia sobre as indulgências, o debate se elevou até ao ponto de duvidar do poder absoluto e autoridade do Papa, pois as doutrinas de “Tesouraria da Igreja” e “Tesouraria dos Merecimentos”, que serviam para reforçar a doutrina e venda e das indulgências, haviam se baseado na bula papal “Unigenitus“, de 1343, do Papa Clemente VI. Por causa de sua oposição a esta doutrina, Lutero foi qualificado como heresiarca e o Papa, decidido a suprimir por completo os seus pontos de vista, ordenou que ele fosse chamado a Roma, viagem que deixou de ser realizada por motivos políticos.

Lutero, que anteriormente professava a obediência implícita à Igreja, negava agora abertamente a autoridade papal e apelava para que fosse realizado um Concílio. Também declarava que o papado não formava parte da essência imutável da Igreja original.

Desejando manter relações amistosas com o protetor de Lutero, Frederico, o Sábio, o Papa engendrou uma tentativa final de alcançar uma solução pacífica para o conflito. Uma conferência com o representante papal Karl von Miltitz em Altenburg, em janeiro de 1519, levou Lutero a decidir guardar silêncio, tal qual seus opositores. Também escreveu uma humilde carta ao Papa e compôs um tratado demonstrando suas opiniões sobre a Igreja Católica. A carta nunca chegou a ser enviada, pois não continha nenhuma retratação; e no tratado que compôs mais tarde, negou qualquer efeito das indulgências no Purgatório.

Quando Johann Eck desafiou um colega de Lutero, Andreas Carlstadt, para um debate em Leipzig, Lutero juntou-se à discussão (27 de junho18 de julho de 1519), no curso do qual negou o direito divino do solidéu papal e da autoridade de possuir o as chaves do Céu que, segundo ele, haviam sido outorgadas apenas ao próprio Apóstolo Pedro, não passando para seus sucessores.[14][15] Negou que a salvação pertencesse à Igreja Católica ocidental sob a autoridade do Papa, mas que esta se mantinha na Igreja Ortodoxa, do Oriente. Depois do debate, Eck afirmou que forçara Lutero a admitir a semelhança de sua própria doutrina com a de João Huss, que havia sido queimado na fogueira da Inquisição. Algns meses após a chegada dos cardeais vindos de Roma, Martinho Lutero, monge da Igreja Católica, doutor em Humanidades pela Universidade de Erfurt e professor da Universidade de Wittenberg.

Lutero durante os acontecimentos

Não parecia haver esperanças de entendimento. Os escritos de Lutero circulavam amplamente, alcançando França, Inglaterra e Itália, em 1519, e os estudantes dirigiam-se a Wittenberg para escutar Lutero que, naquele momento, publicava seus comentários sobre a Epístola aos Gálatas e suas “Operationes in Psalmos” (Trabalho nos Salmos).

As controvérsias geradas por seus escritos levaram Lutero a desenvolver suas doutrinas mais a fundo, e o seu “Sermão sobre o Sacramento Abençoado do Verdadeiro e Santo Corpo de Cristo, e suas Irmandades”, ampliou o significado da Eucaristia para incluir também o perdão dos pecados e ao fortalecimento da fé naqueles que a recebem. Além disso, ele ainda apoiava a realização de um concílio a fim de restituir a comunhão.

O conceito luterano de “igreja” foi desenvolvido em seu “Von dem Papsttum zu Rom” (Sobre o Papado de Roma), uma resposta ao ataque do franciscano Augustin von Alveld, em Leipzig (junho de 1520). Enquanto o seu “Sermon von guten Werken” (Sermão das Boas Obras), publicado na primavera de 1520, era contrário à doutrina católica das boas obras e dos atos como meio de perdão, mantendo que as obras do crente são verdadeiramente boas, quer para o secular como para o clérigo, se ordenadas por Deus.

A Nobreza alemã

A disputa havida em Leipzig, em 1519, fez com que Lutero travasse contato com os humanistas, especialmente Melanchthon, Reuchlin e Erasmo de Roterdã, que por sua vez também influenciara ao nobre Franz von Sickingen. Von Sickingen e Silvestre de Schauenbur queriam manter Lutero sob sua proteção, convidando-o para seus castelos na eventualidade de não ser-lhe seguro permanecer na Saxônia, em virtude da proscrição papal.

Sob essas circunstâncias de crise, e confrontando aos nobres alemães, Lutero escreveu “À Nobreza Cristã da Nação Alemã” (agosto de 1520), onde recomendava ao laicado, como um sacerdote espiritual, que fizesse a reforma requerida por Deus, mas abandonada pelo Papa e pelo clero. Pela primeira vez Lutero referiu-se ao Papa como o Anticristo[16].

As reformas que Lutero propunha não se referiam apenas a questões doutrinárias, mas também aos abusos eclesiásticos:

  • a diminuição do número de cardeais e outras exigências da corte papal;
  • a abolição das rendas do Papa;
  • o reconhecimento do governo secular;
  • a renúncia da exigência papal pelo poder temporal;
  • a abolição dos Interditos e abusos relacionados com a excomunhão;
  • a abolição das peregrinações nocivas;
  • a eliminação dos excessivos dias santos;
  • a supressão dos conventos para monjas, da mendicidade e da suntuosidade; a reforma das universidades;
  • a ab-rogação do celibato do clero;
  • a união dos boêmios;
  • e, finalmente, uma reforma geral na moralidade pública.

Muitas destas propostas refletiam os interesses da nobreza alemã, revoltada com sua submissão ao Papa e, principalmente, com o fato de terem que enviar riquezas a Roma.

O cativeiro babilônico

Lutero gerou muitas polêmicas doutrinárias com seu “Prelúdio no Cativeiro Babilônico da Igreja“, em especial no que diz respeito aos sacramentos.

  • Eucaristia – apoiava que fosse devolvido o “cálice” ao laicado; na chamada questão do dogma da transubstanciação, afirmava que era real a presença do corpo e do sangue do Cristo na eucaristia, mas refutava o ensinamento de que a eucaristia era o sacrifício oferecido por Deus.
  • Batismo – ensinava que trazia a justificação apenas se combinado com a fé salvadora em o receber; de fato, mantinha o princípio da salvação inclusive para aqueles que mais tarde se convertessem.
  • Penitência – afirmou que sua essência consiste na palavra de promessa de desculpas recebidas com fé.

Para ele, apenas estes três sacramentos podiam assim ser considerados, pois sua instituição era divina e a promessa da salvação de Deus estava conexa a eles. Contudo, em sentido estrito, apenas o batismo e a eucaristia seriam verdadeiros sacramentos, pois apenas eles tinham o “sinal visível da instituição divina”: a água no batismo e o pão e vinho da eucaristia. Lutero negou, em seu documento, que a confirmação (Crisma), o matrimônio, a ordenação sacerdotal e a extrema-unção fossem sacramentos.

Liberdade de um Cristão

Da mesma forma, o completo desenvolvimento da doutrina de Lutero sobre a salvação e a vida cristã foi exposto em “A Liberdade de um Cristão” (publicado em 20 de novembro de 1520, onde exigia uma completa união com Cristo mediante a palavra através da fé, e a inteira liberdade do cristão como sacerdote e rei sobre todas as coisas exteriores, e um perfeito amor ao próximo).

As duas teses que Lutero desenvolve nesse tratado são aparentemente contraditórias, mas, em verdade, são complementares:

  • “O cristão é um senhor libérrimo sobre tudo, a ninguém sujeito”;
  • “O cristão é um servo oficiosíssimo de tudo, a todos sujeito”.

A primeira tese é válida “na fé”; a segunda, “no amor”.

A excomunhão

A 15 de junho de 1520, o Papa advertiu Lutero, com a bula “Exsurge Domine“, onde o ameaçava com a excomunhão, a menos que, num prazo de sessenta dias, repudiasse 41 pontos de sua doutrina, destacados pela Igreja.

Em outubro de 1520, Lutero enviou seu escrito “A Liberdade de um Cristão” ao Papa, acrescentando a frase significativa:

Eu não me submeto a leis ao interpretar a palavra de Deus“.

Enquanto isso, um rumor chegara de que Johan Ech saíra de Meissem com uma proibição papal, enquanto este se pronunciara realmente a 21 de setembro. O último esforço de paz de Lutero foi seguido, em 12 de dezembro, da queima da bula, que já tinha expirado há 120 dias, e o decreto papa de Wittenberg, defendendo-se com seus “Warum des Papstes und seiner Jünger Bücher verbrannt sind” e “Assertio omnium articulorum“. O Papa Leão X excomungou Lutero a 3 de janeiro de 1521, na bula “Decet Romanum Pontificem“.

A execução da proibição, com efeito, foi evitada pela relação do Papa com Frederico III da Saxônia, e pelo novo imperador, Carlos I de Espanha (Carlos V de Habsburgo), que julgou inoportuno apoiar as medidas contra Lutero, diante de sua posição face à Dieta.

A Dieta de Worms

O Imperador Carlos V inaugurou a Dieta real a 22 de janeiro de 1521. Lutero foi chamado a renunciar ou confirmar seus ditos e foi-lhe outorgado um salvo-conduto para garantir-lhe o seguro deslocamento.

A 16 de abril, Lutero apresentou-se diante da Dieta. Johann Eck, assistente do Arcebispo de Trier, mostrou a Lutero uma mesa cheia de cópias de seus escritos. Perguntou-lhe, então, se os livros eram seus e se ele acreditava naquilo que as obras diziam. Lutero pediu um tempo para pensar em sua resposta, o que lhe foi concedido. Este, então, isolou-se em oração e depois consultou seus aliados e amigos, apresentando-se à Dieta no dia seguinte. Quando a Dieta veio a tratar do assunto, o conselheiro Eck pediu a Lutero que respondesse explicitamente à seguinte questão:

Lutero, repeles seus livros e os erros que eles contêm?

Lutero, então, respondeu:

Que se me convençam mediante testemunho das Escrituras e claros argumentos da razão – porque não acredito nem no Papa nem nos concílios já que está provado amiúde que estão errados, contradizendo-se a si mesmos – pelos textos da Sagrada Escritura que citei, estou submetido a minha consciência e unido à palavra de Deus. Por isto, não posso nem quero retratar-me de nada, porque fazer algo contra a consciência não é seguro nem saudável.

De acordo com a tradição, Lutero, então, proferiu as seguintes palavras:

Não posso fazer outra coisa, esta é a minha posição. Que Deus me ajude![17]

Nos dias seguintes, seguiram-se muitas conferências privadas para determinar qual o destino de Lutero. Antes que a decisão fosse tomada, Lutero abandonou Worms. Durante seu regresso a Wittenberg, desapareceu.

O Imperador redigiu o Édito de Worms a 25 de maio de 1521, declarando Martinho Lutero fugitivo e herege, e proscrevendo suas obras.

Processo Romano

Em Junho de 1518, foi aberto o processo contra Lutero, com base na publicação das suas 95 Teses. Alegava-se, com o exame do processo, que ele incorria em heresia. Nas aulas que ministrava na Universidade de Wittenberg, espiões registravam seus comentários negativos sobre a excomunhão. Depois disso, em agosto de 1518, o processo foi alterado para heresia notória. Lutero foi convidado a ir a Roma, onde teria que desmentir sua doutrina.

Lutero recusou-se a fazê-lo, alegando razões de saúde; e pretendeu uma audiência em território alemão. O seu pedido baseava-se no argumento (Gravamina) da Nação Alemã. Seu pedido foi aceito, ele foi convidado para uma audiência com o cardeal Caetano de Vio (Tomás Caetano), durante a reunião das cortes (Reichstag) imperiais de Augsburg. Entre 12 e 14 de outubro de 1518, Lutero falou a Caetano. Este pediu-lhe que revogasse sua doutrina. Lutero recusou-se a fazê-lo.

Do lado romano, o caso pareceu terminado. Por causa da morte de Imperador Maximiliano I (Janeiro de 1519), houve uma pausa de dois anos no andamento do processo. O Imperador tinha decidido que o seu sucessor seria Carlos (futuro Carlos V). Por causa das pertenças de Carlos em Itália, o papa renascentista Leão X receava o cerco do Estado da Igreja e procurava evitar que os príncipes-eleitores alemães (Kurfürsten) renunciassem a Carlos.

O papel de protetor de Lutero assumido por Frederico, o sábio, levou a que Roma pedisse que Karl von Miltiz intercedesse junto ao príncipe por uma solução razoável. Após a escolha de Carlos V como imperador (26 de junho de 1519), o processo de Lutero voltaria a ser alvo de preocupações e trabalhos.

 
Em junho de 1520, reapareceu a ameaça no escrito “Exsurge Domini” e, em janeiro de 1521, a bula “Decet Romanum Pontificem” excomungou Lutero. Seguiu-se, então, a ameaça oficial do imperador (Reichsacht).

Notável é, no entanto, que Lutero foi, mais uma vez, recebido em audiência, o que também deixou claras as diferenças entre o papado e o império. Carlos foi o último rei (após uma reconciliação) a ser coroado imperador pelo papa. Nos dias 17 e 18 de Abril de 1521 Lutero foi ouvido na Dieta de Worms (conferência governativa) e, após ter negado a revogação da sua doutrina, foi publicado o Édito de Worms, banindo Lutero.

O seqüestro de Lutero durante a sua viagem de regresso da Dieta de Worms foi arranjado. Frederico, o sábio ordenou que Lutero fosse capturado por um grupo de homens mascarados a cavalo, que o levaram para o Castelo de Wartburg, em Eisenach, onde ele permaneceu por cerca de um ano. Deixou crescer a barba e tomou as vestes de um cavaleiro, assumindo o pseudônimo de Jörg. Durante esse período de retiro forçado, Lutero trabalhou na sua célebre tradução da Bíblia para o alemão.

Com o início da estadia de Lutero em Wartburg, começou um período muito construtivo de sua carreira como reformista. Em seu “Deserto” ou “Patmos” (como ele mesmo chamava, em suas cartas) de Wartburg, começou a tradução da Bíblia, da qual foi impresso o Novo Testamento, em setembro de 1522.

Em Wartburg, ele produziu outros escritos, preparou a primeira parte de seu Guia para Párocos e “Von der Beichte” (Sobre a Confissão), em que nega a obrigatoriedade da confissão, e admite como saudável a confissão privada voluntária. Também escreveu contra o Arcebispo Albrecht, a quem obrigou, com isso, a desistir de retomar a venda das indulgências. Em seus ataques a Jacobus Latomus, avançou em sua visão sobre a relação entre a graça e a lei, assim como sobre a natureza revelada pelo Cristo, distinguindo o objetivo da graça de Deus para o pecador que, por acreditar, é justificado por Deus devido à justiça de Cristo, pois a graça salvadora reside dentro do homem pecador. Ainda mostrou que o “princípio da justificação” é insuficiente, ante a persistência do pecado depois do batismo – pela inerência do pecado em cada boa obra.

Lutero, amiúde, escrevia cartas a seus amigos e aliados, respondendo-lhes ou perguntando-lhes por seus pontos de vista e respondendo-lhes aos pedidos de conselhos. Por exemplo, Felipe Melanchthon lhe escreveu perguntando como responder à acusação de que os reformistas renegavam a peregrinação e outras formas tradicionais de piedade. Lutero respondeu-lhe em 1 de agosto de 1521:

“Se és um pregador da misericórdia, não pregues uma misericórdia imaginária, mas sim uma verdadeira. Se a misericórdia é verdadeira, deve penitenciar ao pecado verdadeiro, não imaginário. Deus não salva apenas aqueles que são pecadores imaginários. Conheça o pecador, e veja se os seus pecados são fortes, mas deixai que tua confiança em Cristo seja ainda mais forte, e que se alegre em Cristo que é o vencedor sobre o pecado, a morte e o mundo. Cometeremos pecados enquanto estivermos aqui, porque nesta vida não há um só lugar onde resida a justiça. Nós todos, sem embargo, disse Pedro (2ª Pedro 3:13), estamos buscando mais além um novo céu e uma nova terra onde a justiça reinará“.

Enquanto isso, alguns sacerdotes saxônicos haviam renunciado ao voto de castidade, ao mesmo tempo em que outros tantos atacavam os votos monásticos. Lutero, em seu De votis monasticis (Sobre os votos monásticos), aconselhava-os a ter mais cautela, aceitando, no fundo, que os votos eram geralmente tomados “com a intenção da salvação ou à busca de justificação“. Com a aprovação de Lutero em seu “De abroganda missa privata (Sobre a abrogação da missa privada), mas contra a firme oposição de seu prior, os agostinianos de Wittenberg realizaram a troca das formas de adoração e terminaram com as missas. Sua violência e intolerância certamente desagradaram Lutero que, em princípios de dezembro, passou alguns dias entre eles. Ao retornar para Wartburg, escreveu “Eine treue Vermahnung … vor Aufruhr und Empörung” (Uma sincera admoestação por Martinho Lutero a todos os cristãos para que se resguardem da insurreição e rebelião). Apesar disso, em Wittengerg, Carlstadt e o ex-agostiniano Gabriel Zwilling reclamavam a abolição da missa privada e da comunhão em duas espécies, assim como a eliminação das imagens nas igrejas e a ab-rogação do celibato.

Regresso a Wittenberg e os Sermões Invocavit

No final do ano de 1521, os anabatistas de Zwickau se entregam à anarquia. Contrário a tais concepções radicais e temendo seus resultados, Lutero regressou em segredo a Wittenberg, em 6 de março de 1522. Durante oito dias, a partir de 9 de março (domigo de Invocavit) e concluindo no domingo seguinte, Lutero pregou outros tantos sermões que tornaram-se conhecidos como os “Sermões de Invocavit“.

Nessas pregações, Lutero aconselhou uma reforma cuidadosa, que leve em consideração a consciência daqueles que ainda não estivessem persuadidos a acolher a Reforma. A consagração do pão foi restaurada por um tempo e o cálice sagrado foi ministrado somente àqueles do laicado que o desejaram. O cânon das missas, devido ao seu caráter imolatório, foi suprimido. Devido ao sacramento da confissão ter sido abolido, verificou-se a necessidade que muitas pessoas ainda tinham de confessar-se em busca do perdão. Esta nova forma de serviço foi dada a Lutero em “Formula missæ et communionis” (Fórmula da missa e Comunhão), de 1523. Em 1524 surgiu o primeiro hinário de Wittenberg, com quatro hinos.

Como aquela parte da Saxônia era governada pelo Duque Jorge, que proibira seus escritos, Lutero declarou que a autoridade civil não podia promulgar leis para a alma. Fez isso em sua obra: “Über die weltliche Gewalt, wie weit man ihr Gehorsam schuldig sei” (Autoridade Temporal: em que medida deve ser obedecida).

Matrimônio e família

Em abril de 1523, Lutero ajudou 12 freiras a escaparem do cativeiro no Convento de Nimbschen. Entre essas freiras encontrava-se Catarina von Bora, filha de nobre família, com quem veio a se casar, em 13 de junho de 1525. Dessa união nasceram seis filhos: Johannes, Elisabeth, Magdalena, Martin, Paul e Margaretha.

O casamento de Lutero com a ex-freira cisterciense incentivou o casamento de outros padres e freiras que haviam adotado a Reforma. Foi um rompimento definitivo com a Igreja Romana.

A guerra dos camponeses

A guerra dos camponeses (15241525) foi, de muitas maneiras, uma resposta aos discursos de Lutero e de outros reformadores. Revoltas de camponeses já tinham existido em pequena escala em Flandres (13211323), na França (1358), na Inglaterra (13811388), durante as guerras hussitas do século XV, e muitas outras até o século XVIII. Mas muitos camponeses julgaram que os ataques verbais de Lutero à Igreja e sua hierarquia significavam que os reformadores iriam igualmente apoiar um ataque armado à hierarquia social. Por causa dos fortes laços entre a nobreza hereditária e os líderes da Igreja que Lutero condenava, isso não seria surpreendente.

Já em 1522, enquanto Lutero estava em Wartburg, seu seguidor Thomas Münzer, comandou massas camponesas contra a nobreza imperial, pois propunha uma sociedade sem diferenças entre ricos e pobres e sem propriedade privada,[18] Lutero por sua vez defendia que a existência de “senhores e servos” era vontade divina,[18] motivo pelo qual eles romperam.[19] Lutero, desde cedo, argumentou com a nobreza e os próprios camponeses sobre uma possível revolta e também sobre Müntzer, classificando-o como um dos “profetas do assassínio” e colocando-o como um dos mentores do movimento camponês. Lutero escreveu a “Terrível História e Juízo de Deus sobre Tomas Müntzer“, inaugurando essa linha de pensamento.

Na iminência da revolta (1524), Lutero escreveu a “Carta aos Príncipes da Saxônia sobre o Espírito Revoltoso“, mostrando a tirania dos nobres que oprimiam o povo e a loucura dos camponeses em reagir através da força e a confiar em Müntzer como pregador. Houve pouca repercussão sobre esse escrito.

Ainda em 1524, Müntzer mudou-se para a cidade imperial de Mühlhausen, oferecendo-se como pregador. Lutero escreveu a “Carta Aberta aos Burgomestres, Conselho e toda a Comunidade da Cidade de Mühlhausen“, com o propósito de alertar sobre as intenções de Müntzer. Também esse escrito não teve repercussão, pois o conselho da cidade se limitou a pedir informações sobre Müntzer na cidade imperial de Weimar.

O principal escrito dos camponeses eram os “Doze Artigos“, onde suas reivindicações eram expostas. Neles havia artigos de fundo teológico (direito de ouvir o Evangelho através de pregadores chamados por eles próprios) e artigos que tratavam dos maus tratos (exploração nos impostos, etc.) impostos a eles pelos nobres. Os artigos eram fundamentados com passagens bíblicas e dizia-se que se alguém pudesse provar pelas Escrituras que aquelas reivindicações eram injustas, eles as abandonariam. Entre aqueles que se consideravam dignos de fazer tal coisa estava o nome de Martinho Lutero.

De fato, Lutero escreveu sobre os “Doze artigos” em seu livro “Exortação à Paz: Resposta aos Doze artigos do Campesinato da Suábia“, de 1525. Nele, Lutero ataca os príncipes e senhores por cometerem injustiças contra os camponeses e ataca os camponeses pela rebelião e desrespeito à autoridade.

Também esse escrito não teve repercussão e, durante uma viagem pela região da Turíngia, Lutero pôde testemunhar as revoltas camponesas, o que o motivou a escrever o “Adendo: Contra as Hordas Salteadoras e Assassinas dos Camponeses“, onde disse: “Contras as hordas de camponeses (…), quem puder que bata, mate ou fira, secreta ou abertamente, relembrando que não há nada mais peçonhento, prejudicial e demoníaco que um rebelde“.[18] Tratava-se de um apêndice de “Exortação à Paz …“, mas que, rapidamente, tornou-se um livro separado. O Adendo foi publicado quando a revolta camponesa já estava no final e os príncipes cometiam atrocidades contra os camponeses derrotados, de modo que o escrito causou grande revolta da opinião pública contra Lutero. Nele, Lutero encorajava os príncipes a castigarem os camponeses até mesmo com a morte.

Essa repercussão negativa obrigou Lutero a pregar um sermão no dia de pentecostes, em 1525, que se tornou o livro “Posicionamento do Dr. Martinho Lutero Sobre o Livrinho Contra os Camponeses Assaltantes e Assassinos“, onde o reformador contesta os críticos e reafirma sua posição anterior.

Como ainda havia repercussão negativa, Lutero novamente se posicionou sobre a questão no seu “Carta Aberta a Respeito do Rigoroso Livrinho Contra os Camponeses“, onde lamenta e exorta contra a crueldade que estava sendo praticada pelos príncipes, mas reafirma sua posição anterior.

Por fim, a pedido de um amigo, o cavaleiro Assa von Kram, Lutero redigiu “Acerca da Questão, Se Também Militares Ocupam uma Função Bem-Aventurada“, em 1526, com o propósito de esclarecer questões sobre consciência do cristão em caso de guerra e sua função como militar.

A discordância com João Calvino

No movimento reformista (também chamado de Reforma), Lutero não concordou como o “estilo” de reforma de João Calvino. Martinho Lutero queria reformar a Igreja Católica,[20] enquanto João Calvino, acreditava que a Igreja estava tão degenerada, que não havia como reformá-la. Calvino se propunha a organizar uma nova Igreja que, na sua doutrina (e também em alguns costumes), seria idêntica à Igreja Primitiva. Já Lutero decidiu reformá-la, mas afastou-se desse objetivo, fundando, então, o Protestantismo, que não seguia tradições, mas apenas a doutrina registrada na Bíblia, e cujos usos e costumes não ficariam presos a convenções ou épocas. A doutrina luterana está explicitada no “Livro de Concórdia“, e não muda, embora os costumes e formas variem de acordo com a localidade e a época.

O ex-monge agostiniano Martinho Lutero (1483-1546) teve morte natural, embora não haja um consenso entre o seus biógrafos acerca da sua causa mortis. O historiador Frantz Funck-Brentano, por exemplo, escreveu em sua obra “Martim Lutero”:

“Os dois médicos, que o tinham tratado nos últimos momentos, não puderam chegar a um acordo sobre a causa de sua morte, opinando um por um ataque de apoplexia, outro por uma angina pulmonar.” (FUNCK-BRENTANO, Frantz. Martim Lutero. 3. ed. Rio de Janeiro: Vecchi, 1968, p. 277.)

A propósito, em 1521, por ocasião da Dieta de Worms (uma espécie de audiência imperial), foi publicado pelo Imperador Carlos V o Edito de Worms, pelo qual qualquer pessoa, ao menos teoricamente, estaria livre para matar Lutero sem correr o risco de sofrer qualquer sanção penal, já que, pelo referido Edito do Imperador, Lutero foi banido do Império como um fora-da-lei. Por receio de que algo de mal pudesse acontecer a Lutero durante viagem de regresso de Worms, Frederico III (ou Frederico, o Sábio), Príncipe-Eleitor da Saxônia, ordenou que Lutero fosse capturado e levado para o Castelo de Wartburg, onde estaria a salvo.

Provavelmente, foi por causa desse risco de morte que Lutero passou a correr que seu amigo disse que “tentaram matá-lo”.

Obras importantes

Foi o autor de uma das primeiras traduções da Bíblia para alemão, algo que, naquela época, não era permitido pela Igreja católica sem especial autorização eclesiástica. Lutero, contudo, não foi o primeiro tradutor da Bíblia para alemão. Já havia traduções mais antigas. A tradução de Lutero, no entanto, suplantou as anteriores porque, além da qualidade da tradução, foi amplamente divulgada em decorrência da sua difusão por meio da imprensa, desenvolvida por Gutenberg, em 1453.

O latim, língua do extinto Império Romano, permanecia a lingua franca europeia, imediatamente conotada com o passado romano glorioso, uma era de ciência, de progresso econômico e civilizacional, sendo também a língua dos textos sagrados, tal como tinham sido transmitidos às províncias do Império. Por mais longínquas que fossem, nos menos de cem anos que separam a oficialização da religião cristã pelo Imperador Romano Teodósio I em 380 d.C. e a deposição do último imperador de Roma pelo Germânico Odoacro, em 476 d.C. (data avançada por Edward Gibbon e convencionalmente aceita como ano da queda do Império Romano do Ocidente), toda a região, de forma mais ou menos homogênea, se cristianizou. O fim da perseguição à religião cristã pelo império romano se deu em 313 d.C. (Ver: Édito de Milão, Concílio de Niceia, Constantino I, A história do declínio e queda do império romano, Santo Jerónimo).

No entanto, o domínio do latim era, no século XVI, no fim da Idade Média (terminada oficialmente em 1453, com a tomada de Constantinopla pelos Otomanos) e princípio da chamada Idade Moderna, apenas o privilégio de uma percentagem ínfima de população instruída, entre os quais os elementos da própria Igreja. A tradução de Lutero para o alemão foi simultaneamente um ato de desobediência e um pilar da sistematização do que viria a ser a língua alemã, até aí vista como uma língua inferior, dos servos e ignorantes. É preciso adicionar que Lutero não se opunha ao latim, e chegou mesmo a publicar uma edição revisada da tradução latina da Bíblia (Vulgata). Lutero escrevia tanto em latim como em alemão. A tradução da Bíblia para o alemão não significou, portanto, rejeição do latim como língua acadêmica.

Foi também autor da polêmica obra “Sobre os judeus e suas mentiras“. Pouco conhecida, mas muito apreciada pelo próprio Lutero, foi sua resposta a “Diatribe” de Erasmo de Roterdã intitulada De servo arbitrio (Título da publicação em português: Da vontade cativa).

Martinho Lutero foi um defensor do princípio da mortalidade da alma contrastando com a crença de João Calvino, que chamou à crença de Lutero “sono da alma“.

Referências

  1. Plass, Ewald M. “Monasticism,” in What Luther Says: An Anthology. St. Louis: Concordia Publishing House, 1959, 2:964.
  2. Ewald M. Plass, What Luther Says, 3 vols., (St. Louis: CPH, 1959), 88, no. 269; M. Reu, Luther and the Scriptures, Columbus, Ohio: Wartburg Press, 1944), 23.
  3. Luther, Martin. Concerning the Ministry (1523), tr. Conrad Bergendoff, in Bergendoff, Conrad (ed.) Luther’s Works. Philadelphia: Fortress Press, 1958, 40:18 ff.
  4. Fahlbusch, Erwin and Bromiley, Geoffrey William. The Encyclopedia of Christianity. Grand Rapids, MI: Leiden, Netherlands: Wm. B. Eerdmans; Brill, 1999–2003, 1:244.
  5. Tyndale’s New Testament, trans. from the Greek by William Tyndale in 1534 in a modern-spelling edition and with an introduction by David Daniell. New Haven, CT: Yale University Press, 1989, ix–x.
  6. Bainton, Roland. Here I Stand: a Life of Martin Luther. New York: Penguin, 1995, 269.
  7. Bainton, Roland. Here I Stand: a Life of Martin Luther. New York: Penguin, 1995, p. 223.
  8. Hendrix, Scott H. “The Controversial Luther”, Word & World 3/4 (1983), Luther Seminary, St. Paul, MN, p. 393: “And, finally, after the Holocaust and the use of his anti-Jewish statements by National Socialists, Luther’s anti-semitic outbursts are now unmentionable, though they were already repulsive in the sixteenth century. As a result, Luther has become as controversial in the twentieth century as he was in the sixteenth.” Also see Hillerbrand, Hans. “The legacy of Martin Luther”, in Hillerbrand, Hans & McKim, Donald K. (eds.) The Cambridge Companion to Luther. Cambridge University Press, 2003.
  9. Schwiebert, p. 128.
  10. Schwiebert, p. 136.
  11. Roland H. Bainton, “The Gospel,” em Here I Stand: a Life of Martin Luther (New American Library, 1950), pp. 40-42.
  12. Vidal, p. 108
  13. Philip Schaff, History of the Christian Church (Charles Scribner’s Sons, 1910), 7:99; W.G. Polack, The Story of Luther (Concordia Publishing House, 1931), p. 45.
  14. Optime facit papa, quod non potestate clavis (quam nullam habet) sed per modum suffragii dat animabus remissionem. (Tese 26)
  15. Este ponto da doutrina luterana fica clara na refutação feita pelo Papa Leão X na sua bula Exsurge Domine
  16. Martinho Lutero, An Open Letter to The Christian Nobility of the German Nation Concerning the Reform of the Christian Estate, 1520, trad. C. M. Jacobs, em Works of Martin Luther: With Introductions and Notes, Volumen 2 (A. J. Holman Company, 1915; Project Wittenberg, 2006)
  17. Frase extraída de página luterana alemã.
  18. a b c História. Volume Único. Gislane Campos Azevedo e Reinaldo Seriacopi. Editora Ática. 2007. ISBN 978-85-08-11075-9. Pág.: 143.
  19. História das cavernas ao terceiro milênio. Myriam Becho Mota. Patrícia Ramos Braick. Volume I. Editora Moderna. ISBN 85-16-0402-4. Pág.: 179.
  20. História e Vida integrada. Nelson Piletti e Claudino Piletti. 2008. Editora ática. Pág.: 81. ISBN 978-85-08-10049-1.

 

As 95 Teses de Martinho Lutero

(Versão bilíngüe, com texto original em latim)

 

Amore et studio elucidande veritatis hec subscripta disputabuntur Wittenberge, Presidente R. P. Martino Lutther, Artium et S. Theologie Magistro eiusdemque ibidem lectore Ordinario. Quare petit, ut qui non possunt verbis presentes nobiscum disceptare agant id literis absentes.

In nomine domini nostri Hiesu Christi.

Amen.

1. Dominus et magister noster Iesus Christus dicendo ‘Penitentiam agite &c.’ omnem vitam fidelium penitentiam esse voluit.

2. Quod verbum de penitentia sacramentali (id est confessionis et satisfactionis, que sacerdotum ministerio celebratur) non potest intelligi.

3. Non tamen solam intendit interiorem, immo interior nulla est, nisi foris operetur varias carnis mortificationes.

4. Manet itaque pena, donec manet odium sui (id est penitentia vera intus), scilicet usque ad introitum regni celorum.

5. Papa non vult nec potest ullas penas remittere preter eas, quas arbitrio vel suo vel canonum imposuit.

6. Papa non potest remittere ullam culpam nisi declarando, et approbando remissam a deo Aut certe remittendo casus reservatos sibi, quibus contemptis culpa prorsus remaneret.

7. Nulli prorus remittit deus culpam, quin simul eum subiiciat humiliatum in omnibus sacerdoti suo vicario.

8. Canones penitentiales solum viventibus sunt impositi nihilque morituris secundum eosdem debet imponi.

9. Inde bene nobis facit spiritussanctus in papa excipiendo in suis decretis semper articulum mortis et necessitatis.

10. Indocte et male faciunt sacerdotes ii, qui morituris penitentias canonicas in purgatorium reservant.

11. Zizania illa de mutanda pena Canonica in penam purgatorii videntur certe dormientibus episcopis seminata.

12. Olim pene canonice non post, sed ante absolutionem imponebantur tanquam tentamenta vere contritionis.

13. Morituri per mortem omnia solvunt et legibus canonum mortui iam sunt, habentes iure earum relaxationem.

14. Imperfecta sanitas seu charitas morituri necessario secum fert magnum timorem, tantoque maiorem, quanto minor fuerit ipsa.

15. Hic timor et horror satis est se solo (ut alia taceam) facere penam purgatorii, cum sit proximus desperationis horrori.

16. Videntur infernus, purgaturium, celum differre, sicut desperatio, prope desperatio, securitas differunt.

17. Necessarium videtur animabus in purgatorio sicut minni horrorem ita augeri charitatem.

18. Nec probatum videtur ullis aut rationibus aut scripturis, quod sint extra statum meriti seu augende charitatis.

19. Nec hoc probatum esse videtur, quod sint de sua beatitudine certe et secure, saltem omnes, licet nos certissimi simus.

20. Igitur papa per remissionem plenariam omnium penarum non simpliciter omnium intelligit, sed a seipso tantummodo impositarum.

21. Errant itaque indulgentiarum predicatores ii, qui dicunt per pape indulgentias hominem ab omni pena solvi et salvari.

22. Quin nullam remittit animabus in purgatorio, quam in hac vita  debuissent secundum Canones solvere.

23. Si remissio ulla omnium omnino penarum potest alicui dari, certum est eam non nisi perfectissimis, i.e. paucissimis, dari.

24. Falli ob id necesse est maiorem partem populi per indifferentem illam et magnificam pene solute promissionem.

25.Qualem potestatem habet papa in purgatorium generaliter, talem habet quilibet Episcopus et Curatus in sua diocesi et parochia specialiter.

[26] Optime facit papa, quod non potestate clavis (quam nullam habet) sed per modum suffragii dat animabus remissionem.

[27] Hominem predicant, qui statim ut iactus nummus in cistam tinnierit evolare dicunt animam.

[28] Certum est, nummo in cistam tinniente augeri questum et avariciam posse: suffragium autem ecclesie est in arbitrio dei solius.

[29] Quis scit, si omnes anime in purgatorio velint redimi, sicut de s. Severino et Paschali factum narratur.

[30] Nullus securus est de veritate sue contritionis, multominus de consecutione plenarie remissionis.

[31] Quam rarus est vere penitens, tam rarus est vere indulgentias redimens, i. e. rarissimus.

[32] Damnabuntur ineternum cum suis magistris, qui per literas veniarum securos sese credunt de sua salute.

[33] Cavendi sunt nimis, qui dicunt venias illas Pape donum esse illud dei inestimabile, quo reconciliatur homo deo.

[34] Gratie enim ille veniales tantum respiciunt penas satisfactionis sacramentalis ab homine constitutas.

[35] Non christiana predicant, qui docent, quod redempturis animas vel confessionalia non sit necessaria contritio.

[36] Quilibet christianus vere compunctus habet remissionem plenariam a pena et culpa etiam sine literis veniarum sibi debitam.

[37] Quilibet versus christianus, sive vivus sive mortuus, habet participationem omnium bonorum Christi et Ecclesie etiam sine literis veniarum a deo sibi datam.

[38] Remissio tamen et participatio Pape nullo modo est contemnenda, quia (ut dixi) est declaratio remissionis divine.

[39] Difficillimum est etiam doctissimis Theologis simul extollere veniarum largitatem et contritionis veritatem coram populo.

[40] Contritionis veritas penas querit et amat, Veniarum autem largitas relaxat et odisse facit, saltem occasione.

[41] Caute sunt venie apostolice predicande, ne populus false intelligat eas preferri ceteris bonis operibus charitatis.

[42] Docendi sunt christiani, quod Pape mens non est, redemptionem veniarum ulla ex parte comparandam esse operibus misericordie.

[43] Docendi sunt christiani, quod dans pauperi aut mutuans egenti melius facit quam si venias redimereet.

[44] Quia per opus charitatis crescit charitas et fit homo melior, sed per venias non fit melior sed tantummodo a pena liberior.

[45] Docendi sunt christiani, quod, qui videt egenum et neglecto eo dat pro veniis, non idulgentias Pape sed indignationem dei sibi vendicat.

[46] Docendi sunt christiani, quod nisi superfluis abundent necessaria tenentur domui sue retinere et nequaquam propter venias effundere.

[47] Docendi sunt christiani, quod redemptio veniarum est libera, non precepta.

[48] Docendi sunt christiani, quod Papa sicut magis eget ita  magis optat in veniis dandis pro se devotam orationem quam promptam pecuniam.

[49] Docendi sunt christiani, quod venie Pape sunt utiles, si  non in cas confidant, Sed nocentissime, si timorem dei per eas amittant.

[50] Docendi sunt christiani, quod si Papa nosset exactiones venialium predicatorum, mallet Basilicam s. Petri in cineres ire quam edificari cute, carne et ossibus ovium suarum.

[51] Docendi sunt christiani, quod Papa sicut debet ita vellet, etiam vendita (si opus sit) Basilicam s. Petri, de suis pecuniis dare illis, a quorum plurimis quidam concionatores veniarum pecuniam eliciunt.

[52] Vana est fiducia salutis per literas veniarum, etiam si Commissarius, immo Papa ipse suam animam pro illis impigneraret.

[53] Hostes Christi et Pape sunt ii, qui propter venias predicandas verbum dei in aliis ecclesiis penitus silere iubent.

[54] Iniuria fit verbo dei, dum in eodem sermone equale vel longius tempus impenditur veniis quam illi.

[55] Mens Pape necessario est, quod, si venie (quod minimum est) una campana, unis pompis et ceremoniis celebrantur, Euangelium (quod maximum est) centum campanis, centum pompis, centum ceremoniis predicetur.

[56] Thesauri ecclesie, unde Pape dat indulgentias, neque satis nominati sunt neque cogniti apud populum Christi.

[57] Temporales certe non esse patet, quod non tam facile eos profundunt, sed tantummodo colligunt multi  concionatorum.

[58] Nec sunt merita Christi et sanctorum, quia hec semper sine Papa operantur gratiam hominis interioris et crucem, mortem infernumque exterioris.

[59] Thesauros ecclesie s. Laurentius dixit esse pauperes ecclesie, sed locutus est usu vocabuli suo tempore.

[60] Sine temeritate dicimus claves ecclesie (merito Christi donatas) esse thesaurum istum.

[61] Clarum est enim, quod ad remissionem penarum et casuum sola sufficit potestas Pape.

[62] Verus thesaurus ecclesie est sacrosanctum euangelium glorie et gratie dei.

[63] Hic autem est merito odiosissimus, quia ex primis facit novissimos.

[64] Thesaurus autem indulgentiarum merito est gratissimus,  quia ex novissimis facit primos.

[65] Igitur thesauri Euangelici rhetia sunt, quibus olim piscabantur viros divitiarum.

[66] Thesauri indulgentiarum rhetia sunt, quibus nunc piscantur divitias virorum.

[67] Indulgentie, quas concionatores vociferantur maximas  gratias, intelliguntur vere tales quoad questum promovendum.

[68] Sunt tamen re vera minime ad gratiam dei et crucis pietatem comparate.

[69] Tenentur Episcopi et Curati veniarum apostolicarum Commissarios cum omni reverentia admittere.

[70] Sed magis tenentur omnibus oculis intendere, omnibus auribus advertere, ne pro commissione Pape sua illi somnia predicent.

[71] Contra veniarum apostolicarum veritatem qui loquitur, sit ille anathema et maledictus.

[72] Qui vero, contra libidinem ac licentiam verborum Concionatoris veniarum curam agit, sit ille benedictus.

[73] Sicut Papa iuste fulminat eos, qui in fraudem negocii veniarum quacunque arte machinantur.

[74] Multomagnis fulminare intendit eos, qui per veniarum pretextum in fraudem sancte charitatis et veritatis machinantur.

[75] Opinari venias papales tantas esse, ut solvere possint hominem, etiam si quis per impossibile dei genitricem violasset, Est insanire.

[76] Dicimus contra, quod venie papales nec minimum venialium peccatorum tollere possint quo ad culpam.

[77] Quod dicitur, nec si s. Petrus modo Papa esset maiores gratias donare posset, est blasphemia in sanctum Petrum et Papam.

[78] Dicimus contra, quod etiam iste et quilibet papa maiores habet, scilicet Euangelium, virtutes, gratias, curationum &c. ut 1.Co.XII.

[79] Dicere, Crucem armis papalibus insigniter erectam cruci Christi equivalere, blasphemia est.

[80] Rationem reddent Episcopi, Curati et Theologi, Qui tales sermones in populum licere sinunt.

[81] Facit hec licentiosa veniarum predicatio, ut nec reverentiam Pape facile sit etiam doctis viris redimere a calumniis aut certe argutis questionibus laicorm.

[82] Scilicet. Cur Papa non evacuat purgatorium propter sanctissimam charitatem et summam animarum necessitatem ut causam omnium iustissimam, Si infinitas animas redimit propter pecuniam funestissimam ad structuram Basilice ut causam levissimam?

[83] Item. Cur permanent exequie et anniversaria defunctorum et non reddit aut recipi permittit beneficia pro illis instituta, cum iam sit iniuria pro redemptis orare?

[84] Item. Que illa nova pietas Dei et Pape, quod impio et inimico propter pecuniam concedunt animam piam et amicam dei redimere, Et tamen propter necessitatem ipsius met pie et dilecte anime non redimunt eam gratuita charitate?

[85] Item. Cur Canones penitentiales re ipsa et non usu iam diu in semet abrogati et mortui adhuc tamen pecuniis redimuntur per concessionem indulgentiarum tanquam vivacissimi?

[86] Item. Cur Papa, cuius opes hodie sunt opulentissimis Crassis crassiores, non de suis pecuniis magis quam pauperum fidelium struit unam tantummodo Basilicam sancti Petri?

[87] Item. Quid remittit aut participat Papa iis, qui per contritionem perfectam ius habent plenarie remissionis et participationis?

[88] Item. Quid adderetur ecclesie boni maioris, Si Papa, sicut semel facit, ita centies in die cuilibet fidelium has remissiones et participationes tribueret?

[89] Ex quo Papa salutem querit animarum per venias magis quam pecunias, Cur suspendit literas et venias iam olim concessas, cum sint eque efficaces?

[90] Hec scrupulosissima laicorum argumenta sola potestate compescere nec reddita ratione diluere, Est ecclesiam et Papam hostibus ridendos exponere et infelices christianos facere.

[91] Si ergo venie secundum spiritum et mentem Pape predicarentur, facile illa omnia solverentur, immo non essent.

[92] Valeant itaque omnes illi prophete, qui dicunt populo Christi “Pax pax”, et non est pax.

[93] Bene agant omnes illi prophete, qui dicunt populo Christi “Crux crux”, et non est crux.

[94] Exhortandi sunt Christiani, ut caput suum Christum per penas, mortes infernosque sequi studeant,

[95] Ac sic magis per multas tribulationes intrare celum quam per securitatem pacis confidant.

M.D.Xvii.    www.espacoacademico.com.br/034/34tc_lutero.htm

Com um desejo ardente de trazer a verdade à luz, as seguintes teses serão defendidas em Wittenberg sob a presidência do Rev. Frei Martinho Lutero, Mestre de Artes, Mestre de Sagrada Teologia e Professor oficial da mesma. Ele, portanto, pede que todos os que não puderem estar presentes e disputar com ele verbalmente, façam-no por escrito.

Em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Amém.

1. Ao dizer: “Fazei penitência”, etc. [Mt 4.17], o nosso Senhor e Mestre Jesus Cristo quis que toda a vida dos fiéis fosse penitência.

2. Esta penitência não pode ser entendida como penitência sacramental (isto é, da confissão e satisfação celebrada pelo ministério dos sacerdotes).

3. No entanto, ela não se refere apenas a uma penitência interior; sim, a penitência interior seria nula se, externamente, não produzisse toda sorte de mortificação da carne.

4. Por conseqüência, a pena perdura enquanto persiste o ódio de si mesmo (isto é a verdadeira penitência interior), ou seja, até a entrada do reino dos céus.

5. O papa não quer nem pode dispensar de quaisquer penas senão daquelas que impôs por decisão própria ou dos cânones.

6. O papa não tem o poder de perdoar culpa a não ser declarando ou confirmando que ela foi perdoada por Deus; ou, certamente, perdoados os casos que lhe são reservados. Se ele deixasse de observar essas limitações, a culpa permaneceria.

7. Deus não perdoa a culpa de qualquer pessoa sem, ao mesmo tempo, sujeitá-la, em tudo humilhada, ao sacerdote, seu vigário.

8. Os cânones penitenciais são impostos apenas aos vivos; segundo os mesmos cânones, nada deve ser imposto aos moribundos.

9. Por isso, o Espírito Santo nos beneficia através do papa quando este, em seus decretos, sempre exclui a circunstância da morte e da necessidade.

10. Agem mal e sem conhecimento de causa aqueles sacerdotes que reservam aos moribundos penitências canônicas para o purgatório.

11. Essa cizânia de transformar a pena canônica em pena do purgatório parece ter sido semeada enquanto os bispos certamente dormiam.

12. Antigamente se impunham as penas canônicas não depois, mas antes da absolvição, como verificação da verdadeira contrição.

13. Através da morte, os moribundos pagam tudo e já estão mortos para as leis canônicas, tendo, por direito, isenção das mesmas.

14. Saúde ou amor imperfeito no moribundo necessariamente traz consigo grande temor, e tanto mais quanto menor for o amor.

15. Este temor e horror por si sós já bastam (para não falar de outras coisas) para produzir a pena do purgatório, uma vez que estão próximos do horror do desespero.

16. Inferno, purgatório e céu parecem diferir da mesma forma que o desespero, o semidesespero e a segurança.

17. Parece necessário, para as almas no purgatório, que o horror devesse diminuir à medida que o amor crescesse.

18. Parece não ter sido provado, nem por meio de argumentos racionais nem da Escritura, que elas se encontrem fora do estado de mérito ou de crescimento no amor.

19. Também parece não ter sido provado que as almas no purgatório estejam certas de sua bem-aventurança, ao menos não todas, mesmo que nós, de nossa parte, tenhamos plena certeza disso.

20. Portanto, por remissão plena de todas as penas, o papa não entende simplesmente todas, mas somente aquelas que ele mesmo impôs.

21. Erram, portanto, os pregadores de indulgências que afirmam que a pessoa é absolvida de toda pena e salva pelas indulgências do papa.

22. Com efeito, ele não dispensa as almas no purgatório de uma única pena que, segundo os cânones, elas deveriam ter pago nesta vida.

23. Se é que se pode dar algum perdão de todas as penas a alguém, ele, certamente, só é dado aos mais perfeitos, isto é, pouquíssimos.

24. Por isso, a maior parte do povo está sendo necessariamente ludibriada por essa magnífica e indistinta promessa de absolvição da pena.

25. O mesmo poder que o papa tem sobre o purgatório de modo geral, qualquer bispo e cura tem em sua diocese e paróquia em particular.

26. O papa faz muito bem ao dar remissão às almas não pelo poder das chaves (que ele não tem), mas por meio de intercessão.

27. Pregam doutrina mundana os que dizem que, tão logo tilintar a moeda lançada na caixa, a alma sairá voando [do purgatório para o céu].

28. Certo é que, ao tilintar a moeda na caixa[1], pode aumentar o lucro e a cobiça; a intercessão da Igreja, porém, depende apenas da vontade de Deus.

29. E quem é que sabe se todas as almas no purgatório querem ser resgatadas, como na história contada a respeito de São Severino e São Pascoal?

30. Ninguém tem certeza da veracidade de sua contrição, muito menos de haver conseguido plena remissão.

31. Tão raro como quem é penitente de verdade é quem adquire autenticamente as indulgências, ou seja, é raríssimo.

32. Serão condenados em eternidade, juntamente com seus mestres, aqueles que se julgam seguros de sua salvação através de carta de indulgência.

33. Deve-se ter muita cautela com aqueles que dizem serem as indulgências do papa aquela inestimável dádiva de Deus através da qual a pessoa é reconciliada com Ele.

34. Pois aquelas graças das indulgências se referem somente às penas de satisfação sacramental, determinadas por seres humanos.

35. Os que ensinam que a contrição não é necessária para obter redenção ou indulgência, estão pregando doutrinas incompatíveis com o cristão.

36. Qualquer cristão que está verdadeiramente contrito tem remissão plena tanto da pena como da culpa, que são suas dívidas, mesmo sem uma carta de indulgência.

37. Qualquer cristão verdadeiro, vivo ou morto, participa de todos os benefícios de Cristo e da Igreja, que são dons de Deus, mesmo sem carta de indulgência.

38. Contudo, o perdão distribuído pelo papa não deve ser desprezado, pois – como disse – é uma declaração da remissão divina[2].

39. Até mesmo para os mais doutos teólogos é dificílimo exaltar simultaneamente perante o povo a liberalidade de indulgências e a verdadeira contrição.[3]

40. A verdadeira contrição procura e ama as penas, ao passo que a abundância das indulgências as afrouxa e faz odiá-las, ou pelo menos dá ocasião para tanto.[4]

41. Deve-se pregar com muita cautela sobre as indulgências apostólicas, para que o povo não as julgue erroneamente como preferíveis às demais boas obras do amor.[5]

42. Deve-se ensinar aos cristãos que não é pensamento do papa que a compra de indulgências possa, de alguma forma, ser comparada com as obras de misericórdia.

43. Deve-se ensinar aos cristãos que, dando ao pobre ou emprestando ao necessitado, procedem melhor do que se comprassem indulgências.[6]

44. Ocorre que através da obra de amor cresce o amor e a pessoa se torna melhor, ao passo que com as indulgências ela não se torna melhor, mas apenas mais livre da pena.

45. Deve-se ensinar aos cristãos que quem vê um carente e o negligencia para gastar com indulgências obtém para si não as indulgências do papa, mas a ira de Deus.

46. Deve-se ensinar aos cristãos que, se não tiverem bens em abundância, devem conservar o que é necessário para sua casa e de forma alguma desperdiçar dinheiro com indulgência.

47. Deve-se ensinar aos cristãos que a compra de indulgências é livre e não constitui obrigação.

48. Deve ensinar-se aos cristãos que, ao conceder perdões, o papa tem mais desejo (assim como tem mais necessidade) de oração devota em seu favor do que do dinheiro que se está pronto a pagar.

49. Deve-se ensinar aos cristãos que as indulgências do papa são úteis se não depositam sua confiança nelas, porém, extremamente prejudiciais se perdem o temor de Deus por causa delas.

50. Deve-se ensinar aos cristãos que, se o papa soubesse das exações dos pregadores de indulgências, preferiria reduzir a cinzas a Basílica de S. Pedro a edificá-la com a pele, a carne e os ossos de suas ovelhas.

51. Deve-se ensinar aos cristãos que o papa estaria disposto – como é seu dever – a dar do seu dinheiro àqueles muitos de quem alguns pregadores de indulgências extorquem ardilosamente o dinheiro, mesmo que para isto fosse necessário vender a Basílica de S. Pedro.

52. Vã é a confiança na salvação por meio de cartas de indulgências, mesmo que o comissário ou até mesmo o próprio papa desse sua alma como garantia pelas mesmas.

53. São inimigos de Cristo e do Papa aqueles que%2